sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Decifra-me




Eu mesmo já fui muitos em um só. Num único dia, cada pedaço meu, um mundo diferente. Tomei sol e chuva, inflei no vento; comi e bebi quanto pude; cada passo à seu tempo. Um mundo diferente a cada instante, não só em mim, mas em todos. Quantos perambulam por aí e não sabem disso? Uma humanidade inteira e tantos mundos diferentes, basta olhar! Cada qual tem seus próprios pensamentos, e um pensamento é um mundo particular, não há como lhe pedir as chaves, tão pouco arrombar as portas para espiar o que vive lá dentro. Eu mesmo sou tão pequeno e tenho tantas histórias, mas diante desse esquecimento caprichoso, de pessoas e fatos, me sinto como uma partícula de meus infinitos mundos, a cada vez que abro meus olhos. E dentro de minha cabeça vivem tantos seres imaginários, que ainda que eu tivesse muito tempo, não os descreveria com a exatidão que merecem. Eu, que já fui tantos, e de tantos outros, hoje só quero ficar no escuro, e aquecer meus pés, pois já não me apetece mais nada. Sempre fui das sombras, agora sei, que fui um ser obscuro e de múltiplas faces. Só quero me aproximar do fundo do escuro, do fim da noite agourenta, e criar mais mundos diferentes em meus sonhos. Eu que sempre mantive os olhos fechados e ainda assim via tantas coisas, não me considero mais um nesse mundo de todos, deve haver algum sentido em tantos sinais, em tanta gente que anda ao meu lado e também leva dentro da cabeça seus mundos ordinários. Eu mesmo nunca dei importância para as criações alheias, como queria que me acendessem holofotes e me estendessem tapetes vermelhos ao passar? Meu caminho é de torturas e carrego comigo meus personagens, a fim de dar-lhes vida quando menos esperarem, e quando eu mais precisar fugir e me esconder de mim mesmo.

2 comentários:

Lucas Neves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lucas Neves disse...

Nossa, que texto lindo!
Essa, por muitas, nossa realidade cruel: nada mais nos surpreende.
E "dar vida aos nossos personagens" sai naturalmente; simples. Às vezes doloroso. Mas sai como um vômito enclausurado. Depois tudo é alívio.

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